Antiope era filha do regente interino de Tebas Nicteu, uma jovem de beleza extraordinária. Epopeus, que reinava em Mecone, na Acaia, ouvira falar de sua beleza e foi cortejá-la, mas Nicteus não permitiu que ele a desposasse.
A beleza de Antiope era tamanha que, no dia em que Zeus a viu, imediatamente se apaixonou. Ele foi até ela, mas disfarçou-se de sátiro para que não levantar as suspeitas de sua ciumenta esposa Hera.

Jupiter et Antiope, Benigne Gagneraux, 1780
Encontrou-a dormindo em um bosque e a seduziu. Antiope se entregou a Zeus, e passado um tempo descobriu que ia ser mãe.

Jupiter und Antiope, Bartholomaus Spranger, 1596
A moça ficou apavorada pensando na cólera do pai e tomou uma decisão radical: fugiu de casa e foi para a cidade de Epopeus. Este a recebeu com grande alegria, aceitou sua gravidez e deu-lhe um lar. Antíope se sentia segura ao seu lado e com ele se casou.
Seu pai, enfurecido, invadiu as terras de Epopeus com um exército. Houve um combate sangrento, e Nicteus foi gravemente ferido. Os tebanos foram obrigados a voltar para sua cidade com o rei moribundo.
Pouco depois Nicteus faleceu e seu irmão Lico jurou sobre seu cadáver que iria encontrar Antíope para trazê-la de volta. Ele reuniu novamente seu exército e partiu para Mecone.
Epopeus foi avisado da nova invasão do exército tebano e aprontou-se imediatamente para enfrentá-los. Antiope, em lágrimas, tentou dissuadi-lo insistindo para que, em vez disso, ele a entregasse aos tebanos.
Ignorando as súplicas de Antiope, Epopeus partiu para a batalha, onde encontrou a morte. Com a morte de seu rei, subiu ao trono seu sucessor, Lámedon, que resolveu devolver Antiope. Então, Lico levou-a de volta para Tebas.
Lico havia desposado Dirce, filha do deus-rio Áqueloo. Mas Dirce viu a beleza de Antíope como uma ameaça e começou a maltratá-la. Assim, Dirce trancou-a num frio, úmido e escuro calabouço, onde ela não poderia ter acesso a quem quer que fosse, seja deus ou mortal.
Algum tempo depois, Antíope deu à luz não a um filho de Zeus, mas a dois irmãos gêmeos. A rainha de Tebas, ao saber do nascimento das crianças, correu e arrancou dos braços da mãe os filhos recém-nascidos, ignorando os gritos e lágrimas da mãe desesperada.
Em seguida, Dirce ordenou ao seu servo mais fiel que pegasse as crianças e as levasse até as montanhas, no monte Citéron, em sua encosta mais selvagem e deserta.
Ela sabia muito bem que deixados na montanha, os bebês não demorariam muito a morrer, isso se não fossem devorados antes pelos lobos.
Contudo, Zeus não abandonaria seus filhos. Apesar do servo de Dirce ser o seu mais fiel servidor, o Senhor do Olimpo verteu o espírito da justiça e da clemência na mente daquele homem. Seus olhos abriram-se para a crueldade da soberana, e ele teve piedade dos indefesos bebês.
Então ele encontrou um bondoso pastor e contou-lhe sobre a ordem que recebera. O pastor teve pena dos meninos e concordou de boa vontade em ficar com eles e criá-los como seus filhos.
O servo tebano disse-lhe que eles eram filhos de Antiope, filha do rei Nicteus de Tebas e esposa do rei Epopeus, de Mecone, ambos mortos, e que atualmente estava presa em Tebas, mas pediu que o pastor guardasse segredo e prometesse que essas crianças jamais saberiam quem era a sua mãe.
O pastor fez a promessa e o servo retornou a Tebas dizendo à rainha que suas ordens haviam sido cumpridas, acrescentando que àquela hora os bebês já deviam ter sido devorados pelos lobos selvagens. Dirce ficou satisfeitíssima.
Antiope era mantida prisioneira num porão escuro no castelo, por exigência de Dirce, que lhe aplicava diversos castigos. A pobre mulher era obrigada a fiar e a trabalhar como uma escrava, e muitas vezes mal recebia água ou pão para alimentar-se.
Mas o tempo passou sem que Zeus esquecesse que deveria ajudar seus filhos e que o trono de Tebas era deles por direito. Um dia, se sentindo muito debilitada, Antiope pensou em Zeus com todo o calor de sua alma pedindo que a levasse ao encontro dos filhos que nem chegou a nutrir.
Do alto do Olimpo, Zeus escutou suas palavras. As correntes que prendiam Antiope romperam-se miraculosamente e Hermes a colheu em seus braços, levando-a até a choupana onde viviam as crianças.
O pastor contou-lhe que os dois haviam sido deixados por um servo da rainha de Tebas e ela logo percebeu que os gêmeos Anfíon e Zeto eram seus filhos.

Zethus und Amphion, Julius Troschel, 1840-50
Mas Dirce notou sua falta e foi em seu encalço. Quando a encontrou, exigiu que os pastores entregassem a ela a “escrava fugitiva”, porém os irmãos, para castigá-la pelos maus tratos infringidos à sua mãe, a amarraram pelos cabelos a um touro selvagem que a arrastou até matá-la.

Dirce, ligada aos chifres de um touro selvagem por Anfião e Zeto na presença de Antiope, Afresco antigo de Pompeia
Logo após a morte da rainha, Lico veio à sua procura e só não morreu nas mãos dos gêmeos devido à intervenção de Hermes, que o obrigou a renunciar ao trono de Tebas em favor dos sobrinhos.

Dirce, a rainha de Tebas, Henryk Siemiradzki, 1897
Zeto era forte, ativo e apreciava caçar e cuidar dos rebanhos; Anfíon era mais contemplativo e tinha grande talento musical. Ao notar o talento de Anfião, o deus Hermes presenteou o jovem com uma lira de ouro mágica.
O som fez com que os blocos de pedra se movessem sozinhos e se encaixassem perfeitamente na estrutura, erguendo as muralhas e as sete portas de Tebas.

Mercure et Amphion, Jean Vignaud, 1819
Anfíon se casou com Níobe, filha de Tântalo, rei da Lídia, e teve muitos filhos e filhas, os nióbidas. Zeto se casou com Tebe, ninfa da fonte homônima e uma das filhas de Asopo, e foi em sua homenagem que Tebas recebeu o seu nome.

Jupiter et Antiope, Jean Simon Berthelemy, 1778
Imagem de capa: Jupiter et Antiope, Jean-Baptiste Marie Pierre, 1745



