Ganimedes

17 de julho de 2026

Ganímedes

Ganímedes era um príncipe de Troia, filho de Tros e Calírroe, irmão de Ilus II e Assáraco. O jovem pastoreava suas ovelhas nas imediações de Troia e foi avistado por Zeus, que ficou deslumbrado com tanta beleza em um ser humano.

Apaixonado à primeira vista pela beleza do jovem mortal, o poderoso Senhor dos deuses metamorfoseou-se em enorme águia, arrebatou o jovem e, dominado pela paixão, o possuiu ainda em pleno voo.

Ganymede, Gabriel Joseph Marie Augustin Ferrier, 1874

Homero relata:

“Ganímedes foi o mais encantador nascido da raça dos mortais, e, portanto, os deuses pegaram-no para si, para servir néctar a Zeus, por causa de sua beleza, então ele pode estar entre os imortais.”

Ganímedes foi levado ao Olimpo e, apesar da fúria de Hera, Zeus encarregou o jovem de substituir Hebe, a deusa da juventude, filha de Zeus e Hera, na sua função de servir néctar e ambrosia aos deuses, bebida e alimento que causam a imortalidade.

The Induction of Ganymede in Olympus, Charles-Amédée-Philippe van Loo, 1768

Por ordem de Zeus, Hermes apresentou-se diante do infeliz rei e da sua esposa, que se mostravam inconformados com a perda do filho.

Zeus compensou Tros, o pai de Ganímedes, com o presente de um par de belos cavalos, “os mesmos que carregam os imortais”, tão velozes que podiam correr “sobre a água e sobre campos de trigo”, entregues pelo deus mensageiro Hermes.

Tros ficou conformado com o fato de seu filho ser o copeiro dos deuses, uma posição de grande distinção.

Ganymede feeding the Eagle, Richard Evans, 1822

Pelo poder de Zeus, o mortal mais belo torna-se um deus imortal e em sua homenagem, o Senhor dos deuses colocou-o no firmamento sob a forma da constelação de Aquário. O símbolo do signo de Aquário é um aguadeiro, que seria o próprio Ganímedes.

Aquarius, Johannes Hevelius, Firmamentum Sobiescianum, 1690

O mensageiro dos deuses informou que seu filho agora é um deus e acrescentou que poderão vê-lo no céu na constelação de Aquário. 

Este mito é um modelo para o costume social grego de pederastia (παῖς, “criança”, e ἐράω, “amar”), a relação sexual socialmente aceitável entre um homem adulto e um adolescente do sexo masculino, considerada como um processo preparatório que visava a inserção do jovem na sociedade.

Ela era tão difundida que foi chamada de “a essência do modelo cultural para relações livres entre os cidadãos.”

As relações pederásticas eram realizadas pelo “erastes”, normalmente um homem com mais de 30 anos, denominado amante e pelo “eromeno”, um jovem de idades entre 12 e 18 anos, denominado amado, sendo que cabia ao eromeno aceitar ou não o convite do erasta.

Eromeno e Erastes, afresco do Túmulo do Mergulhador, 475-470 a.C.

O comportamento ideal do erastes era baseado no amor, e sua afeição era expressa em atos de generosidade e simpatia, em contraste com aqueles que desejavam somente o prazer sexual.

Platão, em sua obra “O Banquete”, narra uma conversa entre Apolodoro e um companheiro na qual Apolodoro descreve o banquete que ocorreu na casa de Agaton, poeta ateniense, que teve a participação de Fedro, Pausânias, Erixímaco, Aristófanes, Sócrates e do próprio Agaton.

Plato’s Symposium, Anselm Feuerbach, 1873

O primeiro a discorrer sobre é Fedro. Falando sobre a pederastia, ele diz que o Amor é o deus mais antigo e é um deus admirado pelos homens e pelos demais deuses. Fedro bendiz as “loucuras de amor” que os amantes podem cometer e diz que esses atos não podem ser condenados, mas que seria necessário a reciprocidade entre os envolvidos.

O segundo a discursar é Pausânias. Ele traz à tona os códigos morais que envolvem erastas e eromenos, onde o amor entre dois homens não é malvisto. Sua ideia central é de que não existe somente um tipo de amor, mas sim dois, e ambos provêm de Afrodite.

São eles: a Afrodite Pandêmia, que, segundo ele, seria o amor comum a todos, e a Afrodite Urânia, que seria o amor entre dois homens, um amor de cunho intelectual e não físico.

Logo discursa o médico Erixímaco. Ele diz que Eros influencia todos os seres do universo, como plantas, seres humanos e animais. Ele pouco aborda acerca da pederastia, trazendo homens e mulheres como reguladores de todas as ações vitais. 

Aristófanes apresenta, na sequência, uma explicação etiológica para a origem do desejo amoroso. Ele traz o conceito de que em determinada época existiram na terra homens, mulheres e andróginos, que eram seres que tinham duas metades, uma de cada sexo.  

Esses andróginos teriam se revoltado com os deuses, Zeus então os castiga condenando-os a vagar à procura de sua outra metade. A conclusão de Aristófanes é de que não é condenável a relação entre dois iguais.

Assim como se conclui da fala de Pausânias, a fala de Aristófanes não emprega a necessidade ou tão pouco a ocorrência do ato sexual.

O discurso do anfitrião, Agaton, inicia com ele atribuindo algumas características a Eros, tais como beleza e juventude, que seriam características que erastas buscavam em eromenos. Ele faz quase que um manual de o que ser e o que fazer para ser um bom eromeno.

Por último discursa Sócrates, que não usa de suas palavras para expor seu pensamento a respeito de Eros, e sim uma conversa que teve com Diotima de Mantinéia, uma sacerdotisa e filósofa grega.

Busto de Sócrates

Diotima não apresenta Eros como um deus, mas também não como mortal e sim como um intermediário dos dois, o que ela chama de daimon, o qual era filho de Penia, a pobreza e Poros, a deus da Abundância.

Diotima de Mantineia, Józef Simmler, 1855

Este havia adormecido após embriagar-se com o néctar dos deuses. Percebendo a oportunidade, Pênia deitou-se ao lado de Poros e engravidou de Eros.

Penia e Poros, Nicolas Fernandez, 2013

Por causa dessa dualidade, o amor na filosofia platônica nunca é totalmente rico nem totalmente pobre, mas um intermediário: ele é carente (como a mãe) mas incansável e engenhoso para conseguir o que deseja (como o pai).

Segundo relatos do texto de Platão e de alguns de seus companheiros, o amor é um dos maiores bens do homem, junto com o inteligência e a sabedoria.

Ele relaciona o amor com a verdade, pois quando se ama não é somente exercer o poder sobre alguém ou demonstrar força, mas trata-se de saber ser correspondido, ou seja, trata-se da verdade.

Jupiter and Ganymede, Nicolaes van Helt Stockade, 1660-69

Imagem de capa: Il ratto di Ganimede, Girolamo da Carpi, 1543

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